Saramago - Artigo em Português

saramagoCada livro do Nobel José Saramago terá sido um banquete. Mas esta Sexta-feira 18 de Junho, na ilha espanhola de Lanzarote, uma jovem mulher de uma beleza demoníaca apanhou-o.

TRADUÇÃO NÃO OFICIAL

Por Zouaoui Benhamadi – El Watan, 05/10/2010

Esta mulher de atracção turva e fatal chama-se morte. É a heroína de um dos seus últimos romances Morte por intermitência, onde se fala de uma greve da morte. E sim, a morte zanga-se porque não pôde transgredir o imemorável procedimento em vigor na gestão das partidas definitivas! Então ela pára de “trabalhar” e mais ninguém morre no reino de Portugal, provocando um imenso caos no mundo dos vivos. Porque, se mais ninguém morre, o que irão dizer e fazer as pessoas de ciências, as pessoas de fé, as pessoas de lei, as pessoas de armas e mesmo os homens de Estado? Nada, se não vê-los, cada um na sua capela, triste e laboriosamente, tentando justificar o inconcebível. Mas o autor, tem algo a lhe dizer. Segue-se então um longo vazamento parabólico de cerca de 300 páginas, onde o talento deste que resplandece conhecedor da dialéctica, que é José Saramago, vai ilustrar-se para dar sentido ao sentido – ou sem sentido. José Saramago, por conseguinte, morreu em Junho de 2010, em plena febre futebolística.

Há tanto a dizer num deserto mediático pela morte de um poeta. Um dos seus críticos escreveu no dia seguinte ao seu falecimento, no jornal espanhol El País: “Provavelmente, num desfile militar, José Saramago desfilaria ao contrário.” Com efeito, toda sua vida foi assim: estar onde mais ninguém da sua envergadura não fica muito tempo nem deseja ser visto. Com efeito também, é necessário hoje em dia contá-los, os intelectuais (ocidentais ou não) que sabem ainda, nesta explosão de aborrecimento dos contravalores que fazem “a norma” internacional, colher e traduzir os cercos de uma humanidade que sofre.

Toda a sua vida, José Saramago, no entender dos outros, terá levado esta espécie de dicotomia que fazia dele igualmente o mestre da parábola filosófica nos seus escritos como homem de esquerda e de coração intratável sobre as perguntas da igualdade e da justiça de todos os dias. José Saramago terá sido a besta negra do “establishment” politico religioso do Presidente da República do seu próprio país que recusou assistir ao seu enterro, no entanto oficialmente declarado nacional, do Vaticano que se congratulou quase que abertamente pelo seu desaparecimento. Os poderosos dos diferentes poderes tinham por ele um qualificativo que o vulgatacapitalista faz ressoar hoje em dia como o supremo insulto: comunista!

Este, arreliador, respondia: “Sim, mas comunista hormonal”, afirmando assim a sua fixação visceral à arqueologia do generoso e fértil pensamento progressista e libertário que sempre fez mover o mundo, mais que a um sistema político que viveu e depois desapareceu na sua pavorosa rigidez dogmática. Estava, se ouso dizer, igualmente zangado com a Igreja; um pouco de mais, na verdade. Dizia-se “ateu mas não crente”, apropriando-se assim, de facto, de uma imensa margem que o autorizava, pensava ele, a reduzir à sua porção congruente a parte do sagrado na aventura humana da qual queria reter apenas a forma talvez mais radical do questionamento existencialista. No plano religioso, livro após livro, do Deus maneta ao Evangelho segundo Jesus Cristo, José Saramago vai aprofundar a sua reflexão, na verdade, a sua crítica, que conduzirá, com Caim, lançada em 2009, a uma forma de uma intolerável blasfémia no entender dos crentes.

Neste livro, Saramago revisite a Bíblia, interroga, interpela, rearranja a história, convoca o presente e interroga-se se o Supremo ainda deseja continuar a guiar o mundo. Para o jornal do Vaticano, L´osseratore Romano, é suficiente para tratar o prémio Nobel “de extremista” e “anti-religioso”. O Vaticano, duvida-se, faz o seu trabalho de guardião do templo, mas não vai impedir que numerosos deserdados do planeta, pelo menos uma vez na sua vida (a mais trágica), de seriamente perguntarem: “Mas onde passou o Salvador?” A pergunta é tanto mais pertinente que, ao crédito do Nobel, o número de comércios extremistas, em todas as religiões, não parou de proliferar.

O humano é interminável

O judaísmo acabou por capturar brutalmente um Estado que pretende “puro e conforme” à regra que os rabinos forjaram uma e única, apesar dos imensos profetas de Israel. O Cristianismo mantém convenientemente o seu conservadorismo mas incentiva, por outro lado, a explosão “das Igrejas” que partem à conquista “dos restos dos povos” com um catecismo capitalista. E há também, certamente, o Islão, o Islão com a sua bonita e serena figura e cuja fragmentação deixou boquiaberta uma auto-estrada de discórdias. Onde se fala menos do essencial que do rito: sunitas, xiitas, ibaditas, druzos, ismaelitas, etc. Onde cada “comunidade” tenta tatuar este brilhante rosto do Islão no selo da sua vaidade. Durante este tempo, emires, oficiais ou não, imans reconhecidos ou autoproclamados, reis no limite de legitimidade ou os presidentes das República bem ou mal eleitos, forjam, eles também, cada um de acordo com as suas conveniências, os tipos de servos que se enquadram melhor com a sua governação, sempre iluminada certamente.

Permanecerá sem dúvida também muito a dizer sobre as religiões não celestiais da Ásia que contam com um número considerável de crentes e onde os conflitos religiosos entre crianças do mesmo país não são nem raros nem menos violentos. Então, perante tal desordem cosmogónica, há, necessariamente, ovelhas, ou mesmo manadas, que se extraviam ou que, com grandes olhos abertos, decidem olhar para outro lado, a fé que não foi oferecida, como qualquer órgão, ao nascimento. José Saramago olha efectivamente para outro lado. O seu horizonte é estritamente humano. Mas com tudo o que isto supõe como dificuldade, como impossibilidade a delimitar, fechar: o humano é interminável. Partir à procura do outro como eu – título de um de seus romances de uma profundidade vertiginosa – é antes de mais ser capaz de se deslastrar dos cosméticos do mundo e de se apresentar como se é. E é precisamente o que José Saramago fez num sumptuoso texto lido a 7 de Dezembro de 1998 aquando da sua recepção do prémio Nobel de literatura. José Saramago tinha 75 anos.

A primeira frase deste texto diz: “O homem mais douto que conheci na minha vida não sabia nem ler nem escrever.” Falava de Jerónimo Melrinho, o seu avô, pastor , analfabeto e “um poço de sabedoria”. Este avô era o filho de um homem de “figura enigmática e fascinan
te”, berbere do Norte de África. E no seu discurso do Nobel, sob os ouros e lambris da Academia real de Estocolmo, na frente da fina flor dos génios da actualidade no mundo, acrescenta tranquilamente: “Um antepassado berbere vindo do Norte de África, outro pastor, uma bonita e maravilhosa avó, pais bonitos e sérios (…) Que outra genealogia podia desejar? Em que melhor árvore teria podido situar-me?”

E continua, sem estar minimamente incomodado, sereno, a falar dos mistérios da criação literária, a escolha dos temas que se impõem e dos personagens que se criam e com as quais se está em desacordo ou com empatia para acabar por não mais saber quem cria quem? Ele disse a esse respeito: “Em certo sentido, pode-se mesmo dizer que carta após carta, palavra após palavra, página após página, livro após livro, tenho vindo sucessivamente a implantar no homem que eu era os personagens que criei.” Salvo que esta enorme efervescência na sua cabeça, por mais criativo que possa revelar-se, não o faz esquecer de onde vem nem o sentido do seu combate. Na frente do extraordinário cruzamento “dos caminhos da liberdade”, no mundo de hoje, José Saramago não se deixará provocar pelo dilema da escolha entre “a justiça e a sua mãe”.

A mãe nunca foi a palavra para significar o contrário da justiça e a justiça está do lado dos oprimidos. Ponto. Assim iremos vê-lo a combater a ditadura de Salazar e a pagar o seu preço. Assim iremos vê-lo apoiar os movimentos de libertação em África. Assim, iremos vê-lo como o único intelectual ocidental de grande envergadura mundial, despousar a causa palestina mais claramente do que um bom número de escritores árabes mais preocupados, e mais submissos à potência editorial judaico-cristã se por acaso existir. Sobre a Palestina, diz: “que é necessário tocar o alarme, por todas as partes do mundo, para dizer que o que está a acontecer com a Palestina é um crime que sabemos parar. Podemos compará-lo com o que aconteceu em Auschwitz.”

Certamente, sobretudo após a sua viagem a Ramallah em 2002 no âmbito da visita de uma delegação do Parlamento dos escritores, que lhe inspirará um texto mais incisivo que o do Nobel africano Wole Soyinka, será tratado de anti-semita. Mas ele não se dobra. A justiça não tem raça e um justo é também o que defende um Árabe palestiniano, sozinho perante o exército israelita que “aplica fielmente as doutrinas genocidas dos que torturaram, gasearam e queimaram os seus antepassados”.

Perto da causa Sahraoui

Porquê mascarar as coisas quando são brutalmente simples? Geograficamente ainda mais próximo dele, a causa sahraoui. De todas as vozes que se fizeram escutar o verão passado para conjurar a militante Aminatou Haïder a não atentar contra a sua vida prosseguindo a greve de fome, a de José Saramago era a mais elevada e as suas palavras as mais devastadoras em relação ao ocupante marroquino. Diz simplesmente: “Creio que os separatistas são os que separam as pessoas da sua terra, que as expulsam, que tentam desenraíza-las.” E acrescenta contra o monarca marroquino: “Um país que está certo do seu passado não tem necessidade de expropriar o do lado para exprimir uma grandeza que ninguém nunca lhe reconhecerá”.

Ícone venerado da península ibérica, voz essencial dos combates da América Latina, José Saramago estava longe de ser um mediático revoltado refém dos seus best-sellers. Ele que sabia tão bem, como o seu compatriota Fernando Pessoa, pintar o menor estremecimento da alma humana, era também rápido a arregaçar as mangas e ocupar fisicamente o terreno das lutas. Curioso, comovente, fraternal, caloroso, este escritor entusiasta que sempre preferiu “a ética à estética” soube ter durante toda a sua vida um olhar de lince através do mundo. Um mundo que a globalização fragiliza, que o capital desregula.

Escreve nos cadernos de Lanzarote: “Privatiza-se tudo, privatiza-se o céu e o mar, então o que fazer? Passar uma vida como a de Saramago: uma vida de rebelde iluminado.” Quanto a tentar saber se não há lá um gene deste antepassado vindo da Berbérie, é outro debate…