A Permanência da Nação na História
O Expansionismo Romano e a Resistência do Estado Númida
Os Estados Islâmicos do Magrebe Central
A Permanência da Nação na História
Para compreender as grandes escolhas da sociedade e as orientações ideológicas da Argélia contemporânea, para reconstruir a trama essencial da unidade e a permanência da nação argelina, o recurso às referências históricas é obrigatório, tão grande é a importância da História não só como instância determinante no desenvolvimento civilizacional do país, mas também como explicação genética, base e componente da personalidade nacional.
Como explicar, entre outros exemplos, a indefectível ligação do povo argelino à liberdade e à independência no seu combate contra a colonização francesa, se não a associarmos numa continuidade intransgressível através dos séculos, a resistência dos homens desta terra a todas as formas de imperialismo?
Como explicar a natureza política e o conteúdo social da Revolução de 1 de Novembro e as perspectivas que se abriram após a independência, se não associarmos esta análise ao exame da formação social que permaneceu antes de 1830 e das constantes socioculturais que 132 anos de colonialismo não puderam transformar?
Como explicar a vocação magrebina fundamental da Argélia de hoje, sem que se refira os grandes projectos dos Estados que se sucederam no Magrebe central para reunir os povos da região na luta pelo mesmo destino?
Qualquer tentativa objectiva visando apurar a verdade histórica a propósito do que foi a do que se tornou a Argélia, deverá ter em conta estes exemplos demonstrativos
Há 500.000 anos, a Argélia era povoada pelos primeiros homens de tipo atlantropo. No primeiro milénio antes da era cristã, as populações organizaram-se em tribos que exploraram, de uma forma comunitária, as terras e os percursos, formando principados dirigidos por um Aguellid, chefe militar e político, prefiguração da direcção unificada do Estado. É desta época que data a fundação dos primeiros postos comerciais fenícios. As tribos mais conhecidas que povoavam o Magrebe eram os Númidas, os Maures, os Libyques e os Garamantes. Estas tribos iriam evoluir rapidamente após a fundação de Cartago, a entrada de Roma no Magrebe e os ataques hegemónicos que se produziram entre estas duas potências.
Enquanto as três guerras púnicas opunham Cartago a Roma, para conquistar as posições imperialistas estratégicas no continente africano, o primeiro Estado argelino formou-se nos séculos III e II antes da era cristã, sob o reinado de Syphax, e mais tarde, de Massinissa, chefes da cavalaria númida e aguellids respectivamente dos Masaesyles e dos Massyles, tendo como capital Siga e depois Cirta, centro económico próspero e poderoso. Sob o reinado de Massinissa, o Estado argelino desenvolve a agricultura fixando as populações nómadas, funda cidades, organiza uma administração eficaz, cria um exército fortemente equipado e dá um incremento sem precedentes às artes e à cultura, assimilando os contributos púnicos e helénicos que soube integrar e transformar.
O Expansionismo Romano e a Resistência do Estado Númida
A queda de Cartago, no ano 146 antes de Cristo, abre caminho para o expansionismo de Roma que não tolera a existência de um Estado forte, independente e unido, tal como o deixou o grande criador de impérios Massinissa à data da sua morte em 148 A.C. A desintegração do território númida, devido à partilha do reino entre os sucessores rivais, facilita os objectivos de Roma que lança as suas legiões em 11 A.C. contra a Númidia. A resistência de Jughurta dura longos anos, afastando por meio da táctica da guerrilha as forças do ocupante, obrigando estes últimos a utilizar expedientes. O Chefe de Estado númida foi finalmente assassinado em Roma em 104 A.C. após ter sido capturado e preso em Tullianum.
Estava aberto o caminho para a anexação da Númidia que se concretizou no ano 25 A.C. Mas as insurreições que marcaram este período nunca cessaram.Conheceram o seu apogeu com a insurreição dirigida por tacfarinas (17 D.C.), apoiadas por uma resistência cultural cujo cisma donatista era era à época forte. As revoltas de Gildon, dos Circoncellions e dos Firmus acabaram por, como muitas outras no século IV, precipitar o processo de decomposição do Império Romano. Por estas razões, a ocupação não teve nenhuma repercussão nos cinco séculos seguintes, durante os quais ela tentou em vão por todos os meios, instaurar a romanização forçada da Númidia pois, na altura em que os Vandales de Genséric ocupam Hippone em 430, Roma que apenas consegue penetrar no território a 150 km da costa, não está em condições de fazer um balanço positivo da sua longa presença no país.
O prosseguimento dos acontecimentos levará ao falhanço da política de romanização, provocada pela fidelidade secular do povo aos seus princípios ideológicos e aos seus valores religiosos e sociais autênticos. O intermediário bizantino de Justiniano, cujo império será brevemente desintegrado, não poderá salvar nada da desconfiguração romana e após capturado os Vandales em 534, submeteu-se ao Islão, tendo levado aos habitantes de Númidia uma mensagem religiosa, política e social revolucionária fundamentalmente nova em relação aos que a precederam.
A penetração do Islão começou em 647 e desenvolve-se com Okba Ibn Nafaâ, que funda Kairouan em 670 e chega até às margens do Atlântico levando consigo Hassan Ibn Noôman, Moussa Ibn Nouçair e Tark Ibn Ziad: este último foi a figura legendária que abrirá ao Islão o caminho de Espanha.
Os Estados Islâmicos do Magrebe Central
O primeiro Estado fundado em 787 é o Estado rostomida notável devido à sua organização económica. Abderrahmane Ibn Rostom é o chefe, apoiando-se num poder democrático instalado numa capital (Tihert), célebre pela posição-chave que ocupa com Sijilmassa na rota africana do ouro. O reino rostomida deslocará a sua capital para Sedrata e a seguir para o Sahara, depois da dinastia dos Fatimidas ter fundado Tihert em 911 e instalado a sua autoridade numa nova capital, Mahdia (Tunísia).
O segundo Estado, cujo reinado foi notável a partir do século X, foi o Estado Zirida cujo fundador Bologuin Ibn Manad reinou em Argel. Urbanizou o país criando numerosas cidades. Em 1007, o Estado Hammadita, cuja capital foi alternadamente Kalaâ de Beni Hammad e Naciria (Bejaia), desenvolveu a obra de urbanização iniciada e organizou uma economia marcada pelas intensas actividades comerciais em direcção a África e ao Mediterrâneo, servindo de ligação dinâmica entre a Europa e o continente africano.
Enquanto a autoridade do poder central enfraquecia, a influência dos Béni Hillal se apagava e Ibn Tachfin acabava o reinado como chefe da dinastia dos Mourâbitine, as tendências unitárias do Magrebe só se exprimiram com a máxima eficácia, por altura da unificação do Estado dos Mouahhidine (1147) que, com Ibn Toumert e Abdelmoumen, realiza pela primeira vez na História, a unidade de todo o Magrebe em 1160.
"A unidade do Magrebe, após se ter consolidado nos domínios cultural e religioso, e numa certa medida económico, estendeu-se ao plano político e contribuiu para dinamizar o urbanismo e assegurar a prosperidade económica. Além disso, conduziu a um desenvolvimento cultural e científico sem precedentes... A aparição de filósofos de renome mundial como Ibn Rochd, Ibn Tofail e Ibn Badja confirma a importância do contributo do Estado dos Mouahhidine no domínio cultural e o seu contributo para a civilização universal".
O desmoronamento do Estado dos Mouahhidine surpreendido entre o activismo dos Estados cristãos e os problemas da administração interna, cede lugar progressivamente ao reino Hafsida em Tunis, ao reino Méridine em Fez e ao reino Zianida em Tlemcen.
O Estado Zianida confere um esplendor particular a este período (1235-1518) e impõe-se como o centro mais importante de desenvolvimento de Yaghmorassen Ibn Ziane. Este Estado, conhecido igualmente sob o nome de reino Abdelwadide, sedentariza os nómadas, assegura a segurança das fronteiras e defende-se com tenacidade contra a avidez dos seus vizinhos.
O enfraquecimento do mundo islâmico, minado pelas rivalidades dos pretendentes ao poder, fez com que Machrek e Magrebe entrassem juntas numa espiral de crises aproveitadas pelos Estados cristãos decididos, desde há muito, a conquistar territórios militar e economicamente vantajosos após o termo da Reconquista com a tomada de Granada em 1492. A resistência oposta pelo Estado Zianida às agressões espanholas apoiava-se na adesão combatente das populações, mas a tomada de Oran em 1508, o resgate de numerosos portos costeiros e a edificação em Argel de uma fortaleza sobre Penõn, comprometiam-na seriamente. O apelo lançado aos irmãoes Arroudj e Kheireddine, permitiu alterar a situação e reunir as condições para uma melhor organização da luta contra a invasão estrangeira e as tentativas de prolongar as cruzadas do Oriente no Magrebe.
Os sucessos conseguidos por Arroudj e depois por Kheireddine que prosseguiu a obra do seu irmão destruindo os Présidios e o forte espanhol em 1529 e estendendo a autoridade do novo Estado sobre um vasto território donde são expulsos os agressores estrangeiros, fazem respeitar e temer a Argélia cuja soberania passa a ser reconhecida internacionalmente pelas maiores potências da época com as quais assina tratados e convenções (com os Países-Baixos em 1663, a França de Luís XIV em 1670, a Inglaterra em 1681, a Espanha em 1791, Portugal em 1813 e com os Estados-Unidos em 1815).
O Estado argelino conhece, sob a sua forma moderna, um período de fausto de três séculos, fundado num território de fronteiras delimitadas e reconhecidas na potência da sua frota que derrotou o Imperador Carlos V, que veio em 1541, com 500 navios conquistar Argel e numa organização política e diplomática fiável. Numerosos factores objectivos, internos e externos, de carácter técnico, científico, militar ou doutrinário, fizeram ressurgir progressivamente um movimento de declínio que levará a uma situação de fraqueza, fonte de intervenções e de numerosas ingerências, delineadas por uma política concertada dos estados europeus, tendo por objectivo que todo o mundo arabo-muçulmano ficasse sob o domínio de um colonialismo ascendente.
A Argélia foi o primeiro Estado arabo-muçulmano do Magrebe visado devido aos seus recursos, à sua posição e ao papel preponderante que tem no Mediterrâneo. Todos oa pretextos financeiros e diplomáticos foram utilizados para tentar destruir a sua influência e atentar contra a sua integridade territorial e a sua soberania.
A colonização Francesa e a Resistência do Povo Argelino
Após a derrota da sua frota na batalha de Navarin em 1827 e as perdas severas que sofreu ao lado da frota otomana, face à ligação das forças navais francesas, britânicas e russas, a Argélia teve de fazer face à mais bárbara agressão da sua História quando Carlos X decide a expedição de Junho de 1830, sob a chefia do General de Bourmont e do Almirante Duperré que desembarcaram na costa de Sidi Fredj.
O povo argelino, que pegou nas armas desde as primeiras horas da agressão, prosseguiu a resistência sobre todo o território nacional nomeadamente, em Constantine e em Annaba, onde o Bey Ahmed e as suas tropas travavam o avanço dos generais franceses. Mas é sobretudo Abdelkader, filho de Mahieddine, que organiza a partir de 1832, data da sua proclamação como Emir e, numa larga escala, uma resistência dirigida com mão de mestre por um Estado que cunha a sua moeda, cobra impostos, administra o território, forma arsenais fornecidos por fábricas nacionais e mantêm relações diplomáticas a partir da capital.
Mascara, à volta da qual um exército popular tenta conter e fazer recuar as invasões colonialistas. A realidade deste estado manifesta-se com esplendor quando o Emir Abdelkader leva o General Desmichels a assinar o tratado com o mesmo nome em 1834 e impõe sérios revezes ao exército francês na Batalha de Macta em 1835 e na Batalha de Tafna onde Bugeaud assina com o Emir, o Tratado de 1837.
O ataque ao campo do Emir em Maio de 1843 pelo Duque de Aumale e a tomada anterior da cidade de Constantine (1837), inauguram uma série de insucessos que começam em 1847 e terminam em 1881 com a colonização de todo o Norte do país. Esta é uma colonização de povoamento espoliando as melhores terras do país, expropriando e expulsando os camponeses das planícies para as montanhas com a ajuda dos grandes bancos e com empresas de exploração agrícola capitalistas.
Dois milhões de hectares são assim pilhados em 1871 nomeadamente, após a insurreição de Mokrani e 500.000 colonos instalam-se nas grandes planícies explorando os camponeses argelinos espoliados pela lei Warnier. Serão um milhão no final da Segunda Guerra Mundialque exteriorizam a economia nacional, ligando-a a interesses estranhos ao povo argelino.
A resistência que, num primeiro momento, seguiu o caminho das armas, com as insurreições de zaâtcha (1844), dos Ouled Sidi Cheik (1864), de Mokrani, de Boumezreg e Cheik El Haddad (1871), Bouamama (1881), de Boumaza, de Boubaghla, de Tama NSoumer, dEl Brakna, de Nasser Benchohra, de Bouchoucha, de Cheik Amoud au Hoggar (1920), atestando o irredentismo da Nação, revelou, no final do século, formas culturais, religiosas e sociais decisivas que conseguiram salvaguardar inteiramente a base da personalidade nacional: o Islão e a língua árabe preparando a criação do movimento nacionalista.
O movimento nacionalista desenvolve-se a partir de 1926, data da formação da Estrela da África do Norte que reivindica a independência imediata e sem condição da Argélia, demonstrando a esterilidade das soluções avançadas pelos partidários da assimilação recrutados nas fileiras dos jovens argelinos e na federação dos eleitos muçulmanos da Argélia.
Neste movimento constituem-se uma série de formações e associações e mobilizam-se na procura de melhores meios para fazer avançar a batalha pela liberdade. Após a sua interdição em 1929, a Estrela do Norte de África retoma as suas actividades em 1233 e publica, em 1953, o seu jornal "El Ouma". Entretanto, Abdelhamid Ben Badis que lançara o movimento do "islah" nos seus jornais El Mountaqid e Ech Chihab, funda, em 1931, a Associação dos Oulémas e inicia um trabalho paciente de tomada de consciência em conjunto com Cheik El Ibrahimi, Cheik El Okbi e Cheik Larbi Tebessi.
A segunda interdição da Estrela do Norte de África, em 1937, leva os militantes a agruparem-se num novo partido, o Partido do Povo Argelino (PPA) que se forma em Maio de 1937. Alvo de prisões e de interdições, o PPA dá lugar, em Outubro de 1946, ao Movimento para o Triunfo das Liberdades Democráticas (MTLD). Cinco meses antes, cria-se a União Democrática do Manifesto Argelino após a publicação, em 1943, do Manifesto do Povo Argelino, seguida da criação dos Amigos do Manifesto e da Liberdade (AML) em 1944.
A dura repressão de 8 de Maio de 1945 (45.000 vitimas) fez com que se manifestasse, por um lado, o pouco eco que a luta legalista dos partidos encontrara no sistema colonial e, por outro lado, a total disponibilidade das massas em seguir um único caminho que permitisse a recuperação da independência nacional. Dois anos mais tarde, cria-se a organização especial (OS) para preparar a passagem à acção. No clima de crise, que afecta de seguida o movimento nacionalista, um grupo de militantes do MTLD-PPA decide, através do comité revolucionário para a unidade e a acção (CRUA), ultrapassar as clivagens internas e iniciar a luta armada. O 1 de Novembro de 1954 tornava-se possível.
Inicia-se assim um novo período para a Argélia. Uma Revolução sem precedentes na História do país tinha tido o seu início para uma longa caminhada consagrando de uma forma organizada e segundo novos métodos, a resistência permanente do povo argelino.
A criação da Frente de Libertação Nacional e do seu braço armado, o ALN, transformaram a paisagem política apanhando de surpresa as forças de ocupação contra as quais foram dirigidas invectivas violentas a 1 de Novembro de 1954, simultaneamente na região de Aurés, no Norte de Constantine, na Kabylie, no Algérois, etc.
A 20 de Agosto de 1955, com a ofensiva generalizada contra as posições do exército colonial, a 20 de Agosto de 1956 com o Congresso de Soummam, em 1957 com a greve dos oito dias e o início da batalha de Argel, e no mesmo ano, com a batalha das fronteiras. Estas acções acentuariam a mobilização das forças vivas da Nação, com a fundação da União Geral dos Trabalhadores Argelinos, a 24 de Fevereiro de 1956, o empenhamento dos estudantes na luta e a greve de 19 de Maio de 1956, a criação da União Geral dos Comerciantes Argelinos e da Federação de França da FLN, que seria responsável pelas operações militares no território do inimigo.
Apesar do estado de sítio, do mosaico do território com cerca de 1 milhão de legionários, de soldados do contingente e de efectivos do pacto de Otan, da multiplicação das zonas interdictas, da sistematização da tortura pela 10ª divisão de paraquedistas do General Massu, das prisões em massa e os massacres de milhões de civis, dos bombardeamentos com napalm, e da destruição de 8.000 aldeias, das tentativas para separar os povos do Magrebe com a agressão de Sakiet Sidi Youcef a 8 de Fevereiro de 1958, da radicalização das operações de guerra ("Jumelles" e "Pierres Précieuses") com a chegada ao poder do General De Gaulle, do putch de 22 de Abril de 1961, da entrada em cena da OAS, a campanha de terra queimada, a procura de uma terceira força e a tentativa de amputação da Argélia do Sahara argelino, apesar de tudo isto, o povo argelino sob o estandarte da FLN permanece na frente à volta das instituições da Revolução Argelina, do Comité de Coordinação e de Execução (CCE), do Conselho Nacional da Revolução Argelina (CNRA), formados no Congresso de Soummam e do Governo Provisório da República Argelina (GPRA) formado em 1958 em Tunis.
A 11 de Dezembro de 1960, mostra a sua coragem exprimindo a todas as nações, o seu desejo de liberdade e a sua reivindicação fundamental: a independência, rejeitando a "paz dos bravos" e as soluções parciais. Abatalha estava ganha. O Magrebe, a África já tinham beneficiado da dinâmica e das consequências internacionais de 1 de Novembro de 1954. Os contactos de Melun e em seguida, as negociações de Evian, culminaram com os acordos de 18 de Março de 1962, instaurando para o dia seguinte, um cessar-fogo e decidindo por um referendo de auto-determinação que terá lugar a 1 de Julho de 1962. A independência arrancada a 5 de Julho de 1962 pelo povo argelinofora paga ao mais alto preço: 1.500.000 mártires que a Nação honrará para sempre porque eles foram os melhores filhos desta geração de Novembro que devolveu a esta terra e aos seus homens, a dignidade e a liberdade pelas quais sempre se bateram desde os tempos mais remotos